Como precificar serviços de reforma sem sair no prejuízo

9 min de leitura

Você olha o serviço, faz uma conta de cabeça e fala um número. O cliente aceita na hora. Naquela noite você já desconfia que cobrou pouco, e três semanas depois tem certeza: a obra atrasou, o ajudante trabalhou dois dias a mais, a serra mármore queimou e sobrou menos do que você ganharia trabalhando de ajudante para outra pessoa.

O preço saiu do lugar errado.

O erro é começar pelo cliente

A maioria dos profissionais precifica olhando para a casa. Portão bom, número alto. Casa simples, número baixo. Cliente fez cara feia, desce quinhentos.

Você está respondendo a pergunta errada. Quanto o cliente aceita pagar não decide se você ganha dinheiro. Quanto custa você aparecer naquela obra decide.

Quem parte do custo faz o caminho inverso e sabe o piso antes de abrir a boca. Aí você decide se sobe pela dificuldade, pela pressa do cliente ou porque sua agenda está cheia, e a escolha é sua.

O preço tem sete pedaços. Vamos um por um.

1. Quanto custa o seu dia de trabalho

Esse é o número que quase ninguém tem.

Pegue papel e escreva quanto você precisa tirar por mês. Aluguel ou prestação, comida, escola das crianças, plano de saúde, prestação do carro, remédio, e o que você quer guardar. Some tudo. Esse é o valor que precisa sair da sua mão de obra todo mês.

Agora a parte que engana: divida esse valor pelos dias que você vende, e não pelos dias que existem no mês.

O mês tem 22 dias úteis. Você não vende 22. Choveu dois dias. Um dia inteiro foi embora rodando para dar três orçamentos. A obra parou porque o material do cliente não chegou. Teve feriado. Na prática você fatura 17, 18 dias.

Se você quer tirar R$ 7.000 por mês e divide por 22, chega em R$ 318 por dia. Se divide por 18, chega em R$ 389. Aqueles R$ 71 por dia de diferença são o trabalho que você faz de graça quando usa a conta errada.

Vale uma comparação com referência pública. Na tabela SINAPI de junho de 2026, a composição 88309 (pedreiro com encargos complementares) tem média nacional de R$ 30,64 por hora na versão desonerada, o que dá cerca de R$ 245 numa jornada de 8 horas. Varia muito por estado: Alagoas fica em R$ 25,88/h e o Rio de Janeiro em R$ 39,72/h, na mesma referência.

Só que esse número é o custo de um pedreiro contratado, com carteira assinada, dentro de uma obra que já tem administração, engenheiro e estrutura. Ele não inclui o seu dia parado, a sua ferramenta, o seu carro nem o seu lucro. Se você é autônomo e usa a diária do SINAPI como preço final, você está se vendendo por menos do que custa um funcionário para uma construtora.

Use a tabela como termômetro da sua região. Não use como preço.

2. O ajudante custa mais do que a diária dele

Você combina R$ 180 de diária e coloca R$ 180 na conta. Faltou o almoço, a condução, e o dia que ele não apareceu e você tinha se programado para trabalhar em dois.

O SINAPI de junho de 2026 traz o servente com encargos complementares em R$ 24,41 por hora de média nacional, cerca de R$ 195 por dia de 8 horas. Essa composição já embute transporte, alimentação, EPI, ferramenta manual, exames e seguro. É por isso que ela é mais alta do que a diária seca que se combina no portão da obra.

Some o valor real: diária + almoço + condução. E se o seu ajudante falta com frequência, você tem um custo escondido aí que aparece como atraso de obra.

3. Deslocamento é hora e é combustível

Duas horas de trânsito por dia consomem 25% da sua jornada. Você não cobra por elas, mas paga por elas.

A conta é direta: quilômetro de ida e volta multiplicado pelos dias de obra, dividido pelo consumo do seu carro, vezes o preço do litro. Some pedágio e estacionamento. Some também o desgaste, porque pneu, óleo e revisão saem do mesmo bolso.

Estabeleça um raio. Dentro dele, deslocamento já está no seu dia. Fora dele, entra como linha separada no orçamento, escrita, com valor. Cliente que mora longe entende taxa de deslocamento. O que ele não entende é você aparecer atrasado e mal-humorado porque rodou 40 km de graça.

4. Ferramenta se gasta enquanto você trabalha

Martelete, serra mármore, furadeira, betoneira, andaime, nível a laser. Cada uma tem vida útil e cada uma vai morrer no meio de uma obra.

Faça assim: some quanto vale seu conjunto de ferramentas e divida pelos meses que ele dura. Se você tem R$ 8.000 em ferramenta que aguenta uns três anos, são R$ 222 por mês. Dividido por 18 dias vendidos, dá algo perto de R$ 12 por dia. Parece pouco. Um ano são quase R$ 2.700, que é o valor da ferramenta que você vai precisar repor sem ter separado dinheiro para isso.

Consumível é outra história e vai por obra: disco de corte, broca, lixa, fita, saco de entulho, luva, óculos. Levante isso na hora do orçamento e coloque como item.

5. Imposto, se você tem CNPJ

Quem é MEI paga o DAS todo mês. Em 2026, prestador de serviço paga R$ 86,05 mensais, valor que sai de 5% do salário mínimo de R$ 1.621 (fixado pelo Decreto 12.797/2025) mais R$ 5 de ISS. Dividido pelos seus dias vendidos, isso é pouco mais de R$ 4 por dia.

O que pesa mais é o teto. O limite do MEI continua em R$ 81.000 por ano, cerca de R$ 6.750 por mês de média, e o Ministério do Empreendedorismo confirmou em maio de 2026 que esse valor não muda neste ano. Passou disso, o imposto deixa de ser R$ 86 e vira um percentual do que entra. Faça essa conta com um contador antes de fechar contrato grande.

6. Retrabalho: o custo que ninguém escreve no papel

Você entregou. Duas semanas depois o cliente liga: o rejunte descolou num canto. Você volta, gasta o dia, compra material, não fatura nada.

Esse dia existe e sai do seu bolso. A maioria dos profissionais trata como azar. É custo, e dá para medir.

Pegue as últimas dez obras que você entregou. Conte quantos dias você voltou para corrigir alguma coisa. Se deu 4 dias de retorno em obras que somaram 50 dias de trabalho, seu retrabalho é 8%. Esse percentual entra no preço de toda obra nova.

Duas coisas derrubam esse número: um orçamento com o escopo bem escrito, que evita a briga do "eu achei que o senhor ia fazer o reboco também", e material de qualidade. A parte do escopo está detalhada em como fazer orçamento de obra que fecha negócio.

7. A margem

Tudo o que veio até aqui é custo. Custo você repõe, e depois de repor você está no zero.

Margem é o que sobra depois disso. É o dinheiro que compra a ferramenta melhor, que paga a semana que você ficou doente, que segura o mês em que a obra atrasou, que um dia paga um segundo ajudante para você tocar duas frentes. Sem margem você não tem negócio, tem um emprego ruim em que você mesmo é o patrão chato.

Escolha um percentual e aplique em todo orçamento. Quando o cliente pede desconto, é a sua margem que ele está pedindo. Saber o tamanho exato dela é o que te deixa responder na hora, com segurança, em vez de ceder no susto.

Juntando tudo

Reforma de banheiro, 5 dias de obra, você e um ajudante:

  • Seu dia: R$ 389 × 5 = R$ 1.945
  • Ajudante (diária + almoço + condução): R$ 200 × 5 = R$ 1.000
  • Deslocamento: R$ 40 × 5 = R$ 200
  • Rateio de ferramenta: R$ 12 × 5 = R$ 60
  • Consumível da obra: R$ 150
  • Imposto (MEI): R$ 22
  • Subtotal de custo: R$ 3.377
  • Retrabalho (8%): R$ 270
  • Margem (20%): R$ 729
  • Preço do serviço: R$ 4.376

Material do cliente entra separado e não faz parte desse número. Se você comprar o material com o seu dinheiro para receber depois, você virou banco do cliente sem cobrar juros por isso.

Agora vem a parte útil. Se o profissional da esquina cobra R$ 2.800 no mesmo banheiro, você sabe do que está abrindo mão se resolver acompanhar. São R$ 1.576 saindo da sua margem e do seu dia. Talvez você aceite, porque sua agenda está vazia e um mês parado custa mais. Essa é uma escolha. Chutar R$ 2.800 sem saber o custo é outra coisa.

Para serviços que você cobra por área, a lógica é a mesma, só que a conta desce até o metro quadrado. Isso está em quanto cobrar por metro quadrado de pintura.

Uma referência para calibrar

O CUB é o Custo Unitário Básico da construção, calculado todo mês pelos Sinduscons de cada estado. Em abril de 2026, o CUB paulista do padrão R8-N ficou em R$ 2.221,44 por metro quadrado na versão sem desoneração, segundo relatório do Sinduscon-SP publicado em 6 de maio de 2026.

Esse índice é de obra nova e cobre material, mão de obra, administração e equipamento. Ele não precifica a sua reforma. Ele mostra que custo de construção é público, sobe todo mês e varia por estado. O cliente que insiste que "isso não pode custar tudo isso" está falando de sensação. Você está falando de conta.

Onde o obra.help entra

A gente não define o seu preço. Quem faz a conta é você, e ela é diferente para cada profissional.

O que a plataforma faz é tirar peso de três lados dela. Você gera o orçamento e o contrato pelo aplicativo com os itens separados, o que ataca o retrabalho na origem, porque escopo escrito é a defesa contra o serviço que o cliente achou que estava incluso. Você tem um perfil público em obra.help/pro/seunome com portfólio, e o pedido de orçamento do cliente chega até você pelo WhatsApp, o que derruba o custo de rodar a cidade caçando obra. E quando você pede o material pelo app, a comissão entra como receita sua, do lado certo da conta.

O cadastro é gratuito.

O resumo

Se você fizer só uma coisa depois de ler isto, faça esta:

Descubra quanto custa o seu dia. Quanto você precisa por mês, dividido pelos dias que você vende de verdade.

Esse número é o seu piso. Abaixo dele, você paga para trabalhar. Todo o resto (ajudante, deslocamento, ferramenta, imposto, retrabalho, margem) empilha em cima.

Comece a medir seu retrabalho hoje: anote todo dia que você voltar numa obra entregue. Em três meses você tem o seu percentual, e ele vale mais que qualquer tabela.

Continue lendo